segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Quando a gente vive na pele (debate sobre o aborto)

Outro dia fui surpreendido por uma pessoa por quem eu tenho muito apreço palavras de ódio contra pessoas que cometem aborto. Essa pessoa de forma irada declarava que quem praticava aborto era assassino, que arderia nos mármores do inferno, que seriam a pior corja da face da terra. Bem, sem dúvida vocês já ouviram falar essas declarações muitas vezes, então nada de espantoso. Há sempre algum fanático falando contra o aborto. Acontece que a pessoa em questão aqui é a pessoa mais liberal que eu conheço, completamente aberta com relação a praticamente tudo, mas com uma opinião ultra conservadora com relação ao oborto.
A questão é que era muito fácil a compreender. Tendo tido uma gravidez na adolescência, largada pelo pai da criança assim que descobriu da gravidez, sendo perseguida em casa, na escola, etc.Essa pessoa, corajosamente decidiu levar a gravidez adiante, mesmo contra a família. Foi forçada e enganada por seus próprios pais a tomar chás abortivos, sofreu horrores, mas conseguiu ter seu filho, que foi o maior motivo de sua alegria até os dias de hoje. Essa pessoa que sofreu horrores similares a muitas das pessoas que optam pelo abordo e foi praticamente forçada a fazê-lo, sendo obrigada a fugir ou então apenas rezar quando foi medicada a força, vê todos os que de boa vontade opta pelo aborto como assassinos. Vê neles ela própria, e vâ no filho abortado seu próprio filho ... então, independente da mais aberta visão do mundo, precisa ter uma opinião parcial sobre o assunto, falando de sua própria vida.
Ao mesmo tempo, conheço uma outra pessoa, menos próxima, que abusada sexualmente na adolescência, optou pelo aborto (mesmo ilegal), seguiu adiante sua vida, anos mais tarde teve seus filhos e crê que foi justamente a possibilidade de escolha que lhe permitu ter uma vida saudável agora, ao lado de seus filhos, sem preconceitos, sem traumas, ao invés de ter uma criança indesejável desiquilibrando toda a família. Neste caso o sofrimento foi inverso, toda a família criticou a postura do aborto, acreditavam que seria um crime contra as leis de Deus e por força da religião chegaram até mesmo a expulsar a menina de casa por sua opção pelo aborto. Para ela qualquer pessoa que tente cercear o direito da mulher a escolher sobre seu próprio corpo é uma ação violenta e autoritária, cabendo a cada pessoa escolher pela sua própria vida e que isso garante, inclusive, a vida saudável dos bebês, nascendo por desejo e não por abuso sexual.

Se são visões opostas sobre o aborto, quem está certo? Que tal as duas? As duas pessoas aqui estão profundamente corretas quanto ao que acreditam e os motivos pelo qual acreditam nisso. Isso não faz, na minha opinião, que a verdade seja simplesmente relativa. Ambas querem vida e liberdade, apenas possuem experiências diferentes sobre isso. É muito complicado lidar com pessoas. É muito difícil conseguir não julgar. Às vezes a sabedoria resite muito mais em tentar compreender o outro do que expor o seu ponto de vista. Somente entendendo é que conseguiremos realmente expor para esse alguém o que pensamos de fato.

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